quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O Barril e o Martelo

- Como você pulou para esquerda? 

- Na verdade eu pulei pra vida mesmo, é olhar ao redor meu amigo. Resolvi deixar essa briga entre a montanha e a planície francesa de lado tem um tempo. Meu grupo de capoeira, atualmente e felizmente, é formado por nordestinos, negros e mulheres. Eu ir contra eles e votar em qualquer animal seria um erro gigante. Eu iria abrir margem pra toda atrocidade que poderia infligir um dano letal neles. Minha consciência de classe não me permite isso. 


- Pessoas e estruturas sociais são diferentes.


- São sim, mas por sorte não sofro da síndrome de dona Florinda, que foge da sua noção de classe por ser uma viúva que recebe pensão militar e nega sua realidade de moradora de um cortiço/vila mexicana, não alimento meu lado Kiko que acha todo mundo abaixo dele seria uma gentalha, tento não ser um senhor Barriga, a alma burguesa do programa que aceita a média da vida de senhores madrugas em sua realidade pra não ter problema com o proletariado. Quem faz piada com a dificuldade alheia deveria se ligar que as vezes a salvação do dia é o sanduíche de presunto que quase nunca chega, o pirulito amarelo que apareceu do nada e o barril que tanto foi usado é a fuga de todo pobre sem rumo, q some, silencia e não tem como subir na vida, pois já nasceu numa guerra histórica imposta por uma herança da elite dominante. Aquele simbólico movimento de descer cano abaixo chorando entra em contradição com toda pancada que o Chaves (a pobreza) dá no seu Barriga (a riqueza), ou seja, na realidade é a consciência de que toda a alma pobre deveria bater no padrão imposto e avisar para todos da necessidade de equidade. Essa quase sempre anulada e silenciada no mundo. Nem toda realidade tem o Chapolin colorado que aparece na primeira frase: - "oh! E agora quem poderá nos defender?" 


Aqui é o Brasil, não a vila que tinha como maior medo a Bruxa do 71. Quase todos os novos medos são reais e não adianta evitar a fadiga do trabalho e gritar outro gato. O ruim mesmo vai ser sempre não saber até quando ter que trabalhar é praga ou salvação.

foice e martelo

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Xícara de café.


Odeio café. Não aturo o cheiro, o gosto e sempre que tomo meio copo meu olho começa a tremer. Tomaria café? Sim! Por algo muito importante. Sempre que vou ao meu avô ele prepara um café.
Ele chega manso, calmo e com aquela serenidade que a idade conquista: "vou preparar um café".

 Meu avô nunca saberá que eu odeio café. Meu avô é do tempo em que café era uma forma de dizer - - Que bom que você veio -, - Fique um pouco mais para prosear -, -Vamos passar um tempo juntos-.

Sempre tomo café com meu avô, nunca falei - Eu te amo, para ele -, amor na minha cabeça vai muito mais pelo que a gente faz, não pelo que fala. Sempre que ele faz café vem a forma dele dizer que me ama.
A minha é bebendo.