quinta-feira, 29 de abril de 2021

Beleza

 


Apegar-se aos detalhes,

Uma zoação no meio da tarde.

A conversa entre a cozinha e sala durante o café.

Ficar jogado no sofá olhando o quadrado moldurado da janela

A falta de frase enquanto fica observando os trejeitos da pessoa

Notar as particularidades: 

o jeito que ela sorrir, 

o modo que ela anda, tropeça e se enrola ao fazer algo

O jeito de prender o cabelo para cima,

O modo que a beleza faz ela ficar linda quando solta o cabelo "que cresce cada dia mais".

O jeito que ela faz uns barulhos como se estivesse ronronando

Olhar a pessoa todo o dia?

E cada dia que passa ela fica mais bonita.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Montei um corpo

O que é saudade? Saudade é seu professor falar que tem uma foto com todos os amigos e só ele sobrou. É quando Chico Buarque fala que é arrumar o quarto do filho que já se foi. Saudade é quando a viúva pergunta ao marido o que será da vida dela quando ele partir e ele dizer que será o que ela quiser.
É virar um Frankenstein, não saber se é criador ou criatura. 
Saudade é montar um corpo com peças de lembranças:
Um sorriso ali.
Uma gargalhada particular da pessoa.
O jeito que ela monta o prato ou belisca.
Saudade é o abraço que não vai mais acontecer.
Aquela frase que ficou faltando.
É esperar a semana toda pra encontrar quem gosta.
Saudade é lembrar da pessoa na mesa no meio da calçada.
Saudade é saber que alguém vai ali, mas não volta já.
É a demora que nem o tempo leva.
Saudade é o que não contaram na aula de matemática quando vão ensinar soma e multiplicação.
É o verbo na aula de português, o primeiro que a gente procura e forma oração.
Um dia de chuva, mata escura e guardo aqui dentro.
Saudade é lembrar da pessoa na mesa com os amigos.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Quando os olhos se encontram

 Descobri que me tornei uma pessoa mais triste nesses últimos tempos. Andei pensando sobre como é viver depois que a gente perde algumas pessoas. Todo o dia me vem isso na mente, não é uma questão de superar, o blábláblá do "Deixa a pessoa seguir", ou como disse Contardo Calligaris à sua esposa ao ser perguntado o que seria da vida dela após sua morte e ele disse - O que você quiser que seja. Perder pessoas faz a gente ficar mais triste, não posso dizer mais velho, mas mais triste hoje tenho certeza.

Quase todos os dias rememoro coisas que me ligam aos que já não estão mais aqui. Coloco o feijão por cima do arroz, pois uma vez brinquei com meu avô sobre esse costume dele, com a cara mais zangada do mundo ele me disse, o feijão é para molhar o arroz, não para afogá-lo. Experimenta um dia e veja a diferença, passados alguns anos, cá estou eu colocando o feijão sempre por cima do arroz e ao contrário acho estranho. Minha avó sempre tinha uma brincadeira de ficar me beliscando quando eu era mais novo, com a mão, ou com o pé, a brincadeira do pim, ou vinha com o dedão, o indicador do pé e tascava um beliscão na minha perna. Hoje em dia pego tudo com o pé, não tenho o hábito de pegar as coisas com a mão quando caem, já vou direto usando o pé. Descobri que toda vez que toco pandeiro ou escuto música de capoeira lembro do meu amigo.

Essas últimas semanas caiu a ficha que não sei mais rir como antigamente, estou mais triste, não que seja ruim, é só diferente. Com o passar do tempo a gente deixa de ser alegre, passa a ser satisfeito e se acostuma. Só que algo me diz, que eu sei disso, mas não devia. 2021 de longe está sendo o ano em que eu mais tenho perdido o tesão por ver o lado bom da vida. 

terça-feira, 30 de março de 2021

Quando os olhos se encontram

Odiei ser ateu por muito tempo, das piores coisas que a descrença me trouxe foi a percepção de não conseguir ver além daqui. Viver é isso, uma consequência sem explicação e motivo. Queria ter a certeza que depois daqui tudo acontece de outra forma, seja ela qual for. Continuo ateu, mas de um tempo para cá resolvi fazer à minha maneira.

Vou fazer diferente por agora.

Toda a pessoa que passou por aqui me ajudou em algo, com o exemplo de como ser um pouco melhor e outras de como eu não quero ser.

Meu amigo tinha um sorriso no rosto gigante, meu amigo era simples, tinha uma palavra positiva para todas as coisas, uma gargalhada que vinha lá de dentro, pois era fácil fazer ele rir. Meu amigo era o ponto que eu nunca tive - ele tentava ver o lado positivo de tudo. Uma vez em uma conversa entre uma cerveja e uma reclamação ele falou: - "Cara 1 ano que nada mudou", na mesma conversa falei que mudou: "pois mudança nem sempre é para melhor", ele olhou e riu. Era isso, eu sou a racionalidade e a razão. Depois sozinho me liguei que mudança para o Plínio era quando acontecia algo bom, antes disso era só a caminhada. Meu amigo falava com emoção sobre todas as coisas que ele queria fazer, todos os planos dele, sonhos e desejos. Com o passar do tempo comecei a pensar parecido com ele, mas agir de forma mais reprimida, meu amigo sem querer me ensinou a olhar as coisas de uma forma positiva. Passei o dia de ontem revendo nossas fotos de treino, todas ele sorria, um sorriso largo e que esticava a cara dele toda, um sorriso feliz, mesmo quando tudo estava desabando ele conseguia rir, sorrir e fazer sorrir. Lembrei do dia que paramos pra encher a cara e comer sardinha no meio da rua. Ele estava do mesmo jeito que nas fotos. Em quase 10 anos de convívio nunca vi o Plínio zangado por mais de 1 hora, ele levantava, sacudia a cabeça e seguia. Quando falava era depois de uma analise muito densa de tudo que viu. Meu amigo era sábio, a maturidade chegou cedo para ele. Obrigado por me ensinar tanto.

Receber a notícia que alguém morreu é estranho, entro no automático, tento ser racional e seguir a vida de uma forma natural, mas não é nada natural. Não vai ter mais a gargalhada, não vai ter mais as conversas no retorno do treino, não vou ouvir mais ele cantando, não vou ver mais ele jogando e fazendo todo mundo vibrar.

Mas vou continuar por aqui até onde der, combinamos de dar aula na mesma escola, fazer uma mistura com a matéria de Química e História , fazer uma roda de capoeira em cada lugar que a gente fosse trabalhar junto. Brinquei contigo da última vez falando que se você morresse eu te matava. Vou seguir nossos planos, só me lembra de tudo que me ensinou quando eu tropeçar e me faz voltar para os nossos planos.

Término aqui como tudo começou. Pela capoeira:

"É saudade que bate no peito ê, saudade que bate e faz chorar"

Recomeço aqui. Como tudo começou:

Pensamento, vá na frente que eu chego depois Porque trago na lembrança, Os olhos que brilham, Quando de novo te encontram Pensamento, olho pro céu e vejo as estrelas, Na folhagem eu sinto o vento Dia de chuva mata escura Me guardo por dentro Caxixi cadê berimbau que estava aqui Estava assentado no chão Parecia um pé de milho Folguedo de Capoeira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira

Simbora!



terça-feira, 16 de março de 2021

Colaboratividade

 Naturalizamos a barbaria dizem os jornais, as mortes pela Covid-19 não chamam mais atenção, todavia um processo como esse não nasceu entre 2020 e 2021.

Antes da morte existe a violência, no geral podemos dizer algumas que todo o brasileiro e vou me resumir ao carioca já sofreu:
Todo carioca já continuou andando ao escutar tiros, só se espanta com um tiroteio aquele carioca que descobre que a bala se torna achada. Quando entra em contato com alguma coisa, muro, teto, telha, varanda, braço, perna, pescoço ou uma criança no jornal, todo o resto é simplesmente uma bala perdida. Outro ponto, naturalizamos a violência que a gente causa no transporte público, pois qualquer pessoa já lutou por um lugar no trem expresso da Central, ficou se empurrando, grudado na porta, até que elas se abram e a luta começa, com seu semelhante do lado, pelo lugar do transporte público que deve se torna seu por algumas horas, caso você seja o lírio dourado do campo da meritocracia pós 8/10 horas de trabalho - esse é meu lugar! ninguém me tira!". Chegamos aos conceitos de propriedade privada temporário entre a Supervia ou Metrô Rio.
Dentro do ônibus é quando a gente finge que bateu o sono depois da feijoada, nesse caso, todo cidadão que entra no antigo rótulo de preferencial é o caldeirão de algum samba.
Eu gostaria de falar outras, mas existe um leque gigante aqui, essas são as que eu vejo sempre e me incomodo.
Já têm algumas semanas que vejo um garoto no trem do Ramal Santa Cruz vendendo bala, biscoito ou doce. Esse é mais velho que meus alunos das creches que trabalho, uns 3 anos, não acredito que ele tenha mais de 8 anos. Ele aos 7 trabalha horas no trem, outros estão aprendendo capoeira de forma pedagógica e me pergunto qual motivo aquele menino não deveria tá na escola e não ali. Vão dizer que é melhor ele trabalhando do que aprendendo besteira na rua. Sempre vou dizer que seria melhor ele estudando e não precisando trabalhar dentro de uma realidade que não faz parte da faixa-etária dele. Trabalhar é ótimo, mas o trem, a rua e a vida é um lugar violento. São necessárias escolas para proteger a nova geração da violência, a prova disso chegou com peso de cheque-especial para todos.
Transformamos a violência e morte em algo normal, pois já convivemos com ela todos os dias, naquele velho ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". A gente transformou a sociedade em um verdadeiro The Walking Dead, só esquecemos de olhar um ponto despercebido da série. Os zumbis vivem em harmonia sem se atacar e dividindo o alimento e os humanos?