Odiei ser ateu por muito tempo, das piores coisas que a descrença me trouxe foi a percepção de não conseguir ver além daqui. Viver é isso, uma consequência sem explicação e motivo. Queria ter a certeza que depois daqui tudo acontece de outra forma, seja ela qual for. Continuo ateu, mas de um tempo para cá resolvi fazer à minha maneira.
Vou fazer diferente por agora.
Toda a pessoa que passou por aqui me ajudou em algo, com o exemplo de como ser um pouco melhor e outras de como eu não quero ser.
Meu amigo tinha um sorriso no rosto gigante, meu amigo era simples, tinha uma palavra positiva para todas as coisas, uma gargalhada que vinha lá de dentro, pois era fácil fazer ele rir. Meu amigo era o ponto que eu nunca tive - ele tentava ver o lado positivo de tudo. Uma vez em uma conversa entre uma cerveja e uma reclamação ele falou: - "Cara 1 ano que nada mudou", na mesma conversa falei que mudou: "pois mudança nem sempre é para melhor", ele olhou e riu. Era isso, eu sou a racionalidade e a razão. Depois sozinho me liguei que mudança para o Plínio era quando acontecia algo bom, antes disso era só a caminhada. Meu amigo falava com emoção sobre todas as coisas que ele queria fazer, todos os planos dele, sonhos e desejos. Com o passar do tempo comecei a pensar parecido com ele, mas agir de forma mais reprimida, meu amigo sem querer me ensinou a olhar as coisas de uma forma positiva. Passei o dia de ontem revendo nossas fotos de treino, todas ele sorria, um sorriso largo e que esticava a cara dele toda, um sorriso feliz, mesmo quando tudo estava desabando ele conseguia rir, sorrir e fazer sorrir. Lembrei do dia que paramos pra encher a cara e comer sardinha no meio da rua. Ele estava do mesmo jeito que nas fotos. Em quase 10 anos de convívio nunca vi o Plínio zangado por mais de 1 hora, ele levantava, sacudia a cabeça e seguia. Quando falava era depois de uma analise muito densa de tudo que viu. Meu amigo era sábio, a maturidade chegou cedo para ele. Obrigado por me ensinar tanto.
Receber a notícia que alguém morreu é estranho, entro no automático, tento ser racional e seguir a vida de uma forma natural, mas não é nada natural. Não vai ter mais a gargalhada, não vai ter mais as conversas no retorno do treino, não vou ouvir mais ele cantando, não vou ver mais ele jogando e fazendo todo mundo vibrar.
Mas vou continuar por aqui até onde der, combinamos de dar aula na mesma escola, fazer uma mistura com a matéria de Química e História , fazer uma roda de capoeira em cada lugar que a gente fosse trabalhar junto. Brinquei contigo da última vez falando que se você morresse eu te matava. Vou seguir nossos planos, só me lembra de tudo que me ensinou quando eu tropeçar e me faz voltar para os nossos planos.
Término aqui como tudo começou. Pela capoeira:
"É saudade que bate no peito ê, saudade que bate e faz chorar"
Recomeço aqui. Como tudo começou:
Pensamento, vá na frente que eu chego depois Porque trago na lembrança, Os olhos que brilham, Quando de novo te encontram Pensamento, olho pro céu e vejo as estrelas, Na folhagem eu sinto o vento Dia de chuva mata escura Me guardo por dentro Caxixi cadê berimbau que estava aqui Estava assentado no chão Parecia um pé de milho Folguedo de Capoeira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira
Simbora!
