quarta-feira, 10 de março de 2021

A navegar

 


Robert Owen teve uma sacada genial, resolveu criar em pleno século XIX uma fábrica que respeitasse o trabalhador. Trouxe uma certa dignidade para pessoas que trabalhavam 14-16 horas por dia em fábricas insalubres, lá se trabalhava 10 horas e se tinha uma qualidade de vida. Uma fábrica têxtil em plena Europa do século XVIII e XIX tem a mesma sensação que a falta de perspectiva de um país em uma plena pandemia descontrolada, mas isso é só uma metáfora tá?
Na minha cabeça esses dias pensei em como Owen poderia ter criado uma fábrica de molduras e não de tecidos. Mas...qual motivo de fabricar molduras? Para as lembranças.

Um almoço no shopping em plena quarta-feira. Uma moldura verde. Uma caminhada até a padaria conversando sobre as notícias do dia. Uma moldura amarela, uma ida ao pronto-socorro, moldura vermelha, pois ainda assim é uma lembrança. Um café no final de uma sexta-feira após uma longa conversa sobre o período militar, um abraço aperto entre a porta do corredor, seguido de um - a tarde foi ótima, volte sempre que quiser -, uma moldura de saudade. Um álbum de música, que tem um barco que a cada faixa vai navegando, lembrança é um barco em pleno mar, ora calmo, ora bravo a balançar.

Uma fábrica deveria trazer qualidade de vida ao seu redor para todos, receber um nome bem bonito e ter um verbete na entrada talhado em madeira. Fábrica do Recordar: "Caminhe por aqui, guardo um retrato teu e a saudade mais bonita."


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