terça-feira, 30 de março de 2021

Quando os olhos se encontram

Odiei ser ateu por muito tempo, das piores coisas que a descrença me trouxe foi a percepção de não conseguir ver além daqui. Viver é isso, uma consequência sem explicação e motivo. Queria ter a certeza que depois daqui tudo acontece de outra forma, seja ela qual for. Continuo ateu, mas de um tempo para cá resolvi fazer à minha maneira.

Vou fazer diferente por agora.

Toda a pessoa que passou por aqui me ajudou em algo, com o exemplo de como ser um pouco melhor e outras de como eu não quero ser.

Meu amigo tinha um sorriso no rosto gigante, meu amigo era simples, tinha uma palavra positiva para todas as coisas, uma gargalhada que vinha lá de dentro, pois era fácil fazer ele rir. Meu amigo era o ponto que eu nunca tive - ele tentava ver o lado positivo de tudo. Uma vez em uma conversa entre uma cerveja e uma reclamação ele falou: - "Cara 1 ano que nada mudou", na mesma conversa falei que mudou: "pois mudança nem sempre é para melhor", ele olhou e riu. Era isso, eu sou a racionalidade e a razão. Depois sozinho me liguei que mudança para o Plínio era quando acontecia algo bom, antes disso era só a caminhada. Meu amigo falava com emoção sobre todas as coisas que ele queria fazer, todos os planos dele, sonhos e desejos. Com o passar do tempo comecei a pensar parecido com ele, mas agir de forma mais reprimida, meu amigo sem querer me ensinou a olhar as coisas de uma forma positiva. Passei o dia de ontem revendo nossas fotos de treino, todas ele sorria, um sorriso largo e que esticava a cara dele toda, um sorriso feliz, mesmo quando tudo estava desabando ele conseguia rir, sorrir e fazer sorrir. Lembrei do dia que paramos pra encher a cara e comer sardinha no meio da rua. Ele estava do mesmo jeito que nas fotos. Em quase 10 anos de convívio nunca vi o Plínio zangado por mais de 1 hora, ele levantava, sacudia a cabeça e seguia. Quando falava era depois de uma analise muito densa de tudo que viu. Meu amigo era sábio, a maturidade chegou cedo para ele. Obrigado por me ensinar tanto.

Receber a notícia que alguém morreu é estranho, entro no automático, tento ser racional e seguir a vida de uma forma natural, mas não é nada natural. Não vai ter mais a gargalhada, não vai ter mais as conversas no retorno do treino, não vou ouvir mais ele cantando, não vou ver mais ele jogando e fazendo todo mundo vibrar.

Mas vou continuar por aqui até onde der, combinamos de dar aula na mesma escola, fazer uma mistura com a matéria de Química e História , fazer uma roda de capoeira em cada lugar que a gente fosse trabalhar junto. Brinquei contigo da última vez falando que se você morresse eu te matava. Vou seguir nossos planos, só me lembra de tudo que me ensinou quando eu tropeçar e me faz voltar para os nossos planos.

Término aqui como tudo começou. Pela capoeira:

"É saudade que bate no peito ê, saudade que bate e faz chorar"

Recomeço aqui. Como tudo começou:

Pensamento, vá na frente que eu chego depois Porque trago na lembrança, Os olhos que brilham, Quando de novo te encontram Pensamento, olho pro céu e vejo as estrelas, Na folhagem eu sinto o vento Dia de chuva mata escura Me guardo por dentro Caxixi cadê berimbau que estava aqui Estava assentado no chão Parecia um pé de milho Folguedo de Capoeira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira

Simbora!



terça-feira, 16 de março de 2021

Colaboratividade

 Naturalizamos a barbaria dizem os jornais, as mortes pela Covid-19 não chamam mais atenção, todavia um processo como esse não nasceu entre 2020 e 2021.

Antes da morte existe a violência, no geral podemos dizer algumas que todo o brasileiro e vou me resumir ao carioca já sofreu:
Todo carioca já continuou andando ao escutar tiros, só se espanta com um tiroteio aquele carioca que descobre que a bala se torna achada. Quando entra em contato com alguma coisa, muro, teto, telha, varanda, braço, perna, pescoço ou uma criança no jornal, todo o resto é simplesmente uma bala perdida. Outro ponto, naturalizamos a violência que a gente causa no transporte público, pois qualquer pessoa já lutou por um lugar no trem expresso da Central, ficou se empurrando, grudado na porta, até que elas se abram e a luta começa, com seu semelhante do lado, pelo lugar do transporte público que deve se torna seu por algumas horas, caso você seja o lírio dourado do campo da meritocracia pós 8/10 horas de trabalho - esse é meu lugar! ninguém me tira!". Chegamos aos conceitos de propriedade privada temporário entre a Supervia ou Metrô Rio.
Dentro do ônibus é quando a gente finge que bateu o sono depois da feijoada, nesse caso, todo cidadão que entra no antigo rótulo de preferencial é o caldeirão de algum samba.
Eu gostaria de falar outras, mas existe um leque gigante aqui, essas são as que eu vejo sempre e me incomodo.
Já têm algumas semanas que vejo um garoto no trem do Ramal Santa Cruz vendendo bala, biscoito ou doce. Esse é mais velho que meus alunos das creches que trabalho, uns 3 anos, não acredito que ele tenha mais de 8 anos. Ele aos 7 trabalha horas no trem, outros estão aprendendo capoeira de forma pedagógica e me pergunto qual motivo aquele menino não deveria tá na escola e não ali. Vão dizer que é melhor ele trabalhando do que aprendendo besteira na rua. Sempre vou dizer que seria melhor ele estudando e não precisando trabalhar dentro de uma realidade que não faz parte da faixa-etária dele. Trabalhar é ótimo, mas o trem, a rua e a vida é um lugar violento. São necessárias escolas para proteger a nova geração da violência, a prova disso chegou com peso de cheque-especial para todos.
Transformamos a violência e morte em algo normal, pois já convivemos com ela todos os dias, naquele velho ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". A gente transformou a sociedade em um verdadeiro The Walking Dead, só esquecemos de olhar um ponto despercebido da série. Os zumbis vivem em harmonia sem se atacar e dividindo o alimento e os humanos?

quarta-feira, 10 de março de 2021

A navegar

 


Robert Owen teve uma sacada genial, resolveu criar em pleno século XIX uma fábrica que respeitasse o trabalhador. Trouxe uma certa dignidade para pessoas que trabalhavam 14-16 horas por dia em fábricas insalubres, lá se trabalhava 10 horas e se tinha uma qualidade de vida. Uma fábrica têxtil em plena Europa do século XVIII e XIX tem a mesma sensação que a falta de perspectiva de um país em uma plena pandemia descontrolada, mas isso é só uma metáfora tá?
Na minha cabeça esses dias pensei em como Owen poderia ter criado uma fábrica de molduras e não de tecidos. Mas...qual motivo de fabricar molduras? Para as lembranças.

Um almoço no shopping em plena quarta-feira. Uma moldura verde. Uma caminhada até a padaria conversando sobre as notícias do dia. Uma moldura amarela, uma ida ao pronto-socorro, moldura vermelha, pois ainda assim é uma lembrança. Um café no final de uma sexta-feira após uma longa conversa sobre o período militar, um abraço aperto entre a porta do corredor, seguido de um - a tarde foi ótima, volte sempre que quiser -, uma moldura de saudade. Um álbum de música, que tem um barco que a cada faixa vai navegando, lembrança é um barco em pleno mar, ora calmo, ora bravo a balançar.

Uma fábrica deveria trazer qualidade de vida ao seu redor para todos, receber um nome bem bonito e ter um verbete na entrada talhado em madeira. Fábrica do Recordar: "Caminhe por aqui, guardo um retrato teu e a saudade mais bonita."


sexta-feira, 5 de março de 2021

Minha lista de saudade

Queria ter tido mais tempo.

Não sei lidar com saudade, essa falta não me faz falta. Esse cansaço de não conseguir parar, essa vontade de ficar ali, no passado, sem me mexer, sem falar, só percebendo que a vida era melhor no antigamente, pois o hoje machuca. Queria te ver outra vez.

Não quero perde a lembrança da voz da pessoa amada depois que ela se foi, não quero deixar os dias monótonos de lado.

Descobri dois tipos de saudades. Há Mal-saudade e a Bem-saudade. 

Mal-saudade é aquela que da um nó na garganta, não passa, machuca e deixa a gente com o olho represado, aquela vontade de chorar que a gente não consegue soltar.

Bem-saudade é aquela da lembrança feliz, da que você lembra que valeu a pena cada dia, cada minuto. Que faz você rir no meio da rua, quando atravessa o sinal vermelho, que algumas pessoas não sabem o porquê daquele sorriso estampado no rosto, com àquela cara de criança arteira em plena sexta-feira de uma aula de capoeira. 

Mal-saudade é sentir solidão em um quarto escuro e saber que a pessoa amada nunca mais vai falar um: "que bom ver você!"

Não queria ter atualizada a minha lista de saudades, queria deixar ela num canto, naquele caderno esquecido que a gente para de usar. Meu amigo, minha avó, meu avô, cada um ali, não queria ver essa lista assim, cada um que vai, vai levando um pouco daqui também.

Ele ou ela, seja quem for a pessoa que você amar, depois da morte nunca mais volta.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Eu, vó ali e volto já

 Era uma tarde comum, estava indo para a faculdade, não havia nada de muito novo acontecendo. Eu ia viver aquele dia como o de costume, chegar na faculdade com sono, ressaca, um pouco cansado, iria fingir que a aula estava acontecendo, iria fingir que estava ali, nada mais. Tudo seguindo aquele padrão formal da vida de um rapaz que cresceu, mas não queria, quem nunca não?

*A gente nunca sabe de nada que está acontecendo, as vezes estamos cortando o pão e na nossa mente um vendável vem, mas a gente anda ocupado com as prioridades. Deveria ser prioridade dar uma pausada e perceber que sentir saudade também é uma prioridade. *

Fechou a apresentação, desligou o datashow e dispensou a turma. Estava pegando a mochila do chão quando o professor o chamou.

- O que anda acontecendo com você? Cada dia mais disperso na aula?

- Ando saindo muito, não estou com muita vontade de focar na faculdade agora.

- Criança você precisa entender que a faculdade não é uma brincadeira.

- Eu sei! Mas preciso me dar esse direito né. Prestar atenção na aula, tendo festa não dá.

- Você paga sua faculdade?

- Sim, mas eu tenho minha maneira de ver as coisas.

- Você está novo ainda, vai perder tempo de bobeira, pode conciliar as coisas, hoje é terça-feira e olha tua cara de acabado, bebeu à noite toda ou ficou na farra até de manhã?

- Posso ir professor? Você está parecendo minha vó falando e não é sua função ficar me alugando agora não.

- Vou descer a escada com você, minha esposa vai me encontrar aqui na frente e daqui vamos sair, preciso levar flores no cemitério.

- Legal! Meio exótico esse encontro.

Andaram calados até a saída da faculdade.

- Goubar se cuida, o período está acabando e no próximo semestre você não terá aula comigo, pois vou para a Inglaterra terminar o Doutorado.

- Preciso ir, sua esposa está ali. Vai lá!

Olhou Goubar andando e ficou parado um tempo. Era um menino dedicado no início, mas por algum motivo era um viajante na sua visão, sempre com um olhar perdido, naufragado, não conseguia chegar perto dele de forma nenhuma, mesmo quando mais novo, uma interrogação.

- O que foi Hugo?

- Goubar chegou novamente de ressaca, esse semestre ele não veio um dia para a aula normal, não sei como consegue pagar a faculdade e nem o motivo dele vir assim.

- Esse menino é daquela família da sua antiga rua, não é?

-  Sim...

Voltou caminhando para casa, não gostava de andar de ônibus e como sua casa ficava a pouco mais de 40 minutos da faculdade, sempre voltava andando, naquele dia estava um pouco frio, situação fora de costume, pois vivia em um dos bairros mais quente do Rio de Janeiro. Chegou em casa, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta e jogou a mochila no chão, tirou a roupa, deixou ela jogada na varanda e despencou de cueca no sofá. Já havia um tempo que passava por aquela situação, sentia uma agonia toda vez que abria o portão, não tinha mais frase a escutar, não tinha mais voz em cima do barulho do dia, não havia mais nada que se esperar. Era sempre a mesma coisa, a mesma repetição dos dias, nada fora do normal.

            Dormiu por algumas horas, acordou, tomou banho, foi até a padaria, acendeu um cigarro, fumou pelo caminho, comprou mais um maço, 4 pães e voltou para casa. Sentou no sofá novamente, pegou um livro – Gaia Ciência -, começou a ler, estudou por algumas horas, pontuou alguns trechos e foi conversar com a tia. Bateu um papo breve, não tinha muito o que falar, saiu para caminhar um pouco, viu uma criança brincando na ciclovia, um casal de idosos tomando uma cerveja no portão, um senhor caminhado de bengala. Acendeu outro cigarro, ficou observando tudo e não via nada. Resolveu voltar para casa, passou na venda, comprou algumas cervejas, iria dormir tarde e precisava de companhia na madrugada. Chegou em casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta, tirou a roupa, deixou-as jogadas na varanda, despencou no sofá, abriu uma lata e começou a beber. Minutos depois colocou as outras na geladeira, colocou uma música para tocar no Youtube - Valtari -, havia um tempo que escutava aquele álbum todo o dia. Possuía esse costume, ouvir o mesmo álbum ou música durante dias.

            O álbum começou a tocar, estava na cozinha, ao chegar no computador notou algo bem interessante, o barco ia mudando de lugar com o passar da música, era como se estivesse em alto mar, velejando entre o fato e a lembrança. Começou a relembrar coisas, algumas lá longe, profundas, o barulho calmo da música do Sigur Rós trazia tudo para fora, tudo que estava ali, balançou um pouco a cabeça, os olhos um tanto marejados, pegou uma vassoura e começou a varrer a casa, não queria pensar, não queria lembrar, não queria nada naquele dia.

            Acordou tarde novamente, limpou as latas da mesa do computador, percebeu que passou a madrugada bebendo, vendo fotos antigas e lendo alguns textos escritos a alguns anos, colocou o álbum para tocar novamente, ao jogar as latas na sacola lembrou de ser quarta-feira, dia de lixo, foi até a rua, deixou o lixo lá, olhou o quintal, muitas folhas no chão, precisava ir no mercado e na volta iria varrer todas as folhas. Hoje não seria um dia para ir até a faculdade, ver uma professora falar sobre tempo e suas consequências. Resolveu que iria matar a aula, já havia passado na matéria e não tinha motivos para perder tempo lá. Foi até o mercado, olhou a prateleira das geleias, fazia tempo que não comia biscoito Cream Cracker, com geleia de ameixa. Questionou quanto tempo, não lembrava, 9 anos talvez, um pouco mais, 11, um pouco menos 7, não recordava.

            Chegou em casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta, jogou as sacolas na varanda, despencou no sofá, pegou um biscoito e começou a comer. Alguns minutos depois se levantou, guardou tudo, olhou para o fichamento que fez no seu livro – Gaia Ciência -, pensou em ouvir música, mas precisava arrumar o quintal, estava entediado, cansado, pegou seu celular, colocou o fone de ouvido, música no aleatório, pegou a vassoura e foi. Passou pela varanda, abriu a primeira porta que antes foi a terceira, empurrou o portão com a fechadura quebrada, não precisava de esforço para tal, mais um portão, seguiu pelo corredor e começou a varrer.  

Imagine que um anjo passe por você no momento que estas varrendo o quintal. Naquele instante ele concedeu um desejo involuntário, criar um momento para algo que você nunca terá a chance de ver acontecer, daquele momento em diante você não está mais de camiseta largada, vassoura na mão, short velho, utilizado para ficar em casa e nada mais que isso. Você agora está de calça jeans, camisa básica azul, seus chinelos foram transformados em um tênis casual comprado para ir ao colégio, faculdade, ou em um bar e seu cabelo não está bagunçado. Aqui começa uma paráfrase do tempo, o tempo não existe já pensou nisso? A hora que bate no seu relógio é diferente de outro local, passado é tudo aquilo que já aconteceu e presente é um passado recente. É quando Nietzsche estabelece a quebra das nossas correntes, das nossas verdades e das nossas próprias dores, tempo está em tudo aquilo que a gente vive, ganhar ou perder tempo é uma questão de disposição e afeto. Tudo que aqui se vive, vai morrer, tudo que morreu, vai ser lembrado, por algum tempo, minutos, segundos, horas, dias, anos, em pequenos momentos, a voz vai sumindo, a lembranças vai ficando espaçada, a dor vai dando espaço para a rotina, um dia, só um dia, você fica chateado, pois lembra da ausência, porém lá no fundo você se torna uma outra pessoa. A verdade toda é que meu peito é uma porta entreaberta, de uma casa em luz baixa, tocando Vambora da Adriana Calcanhoto.

- Vem tomar café!

- Mas...você não está mais por aqui.

- Isso é só um momento meu neto, andou tanto tempo entre ontem e agora pensamento em mim que acabou acontecendo.

- Não tive a chance de te agradecer por tudo.

- Não tem problema, meu querido! Conta para a avó das coisas, mas só das boas hein!

- Ah vó! Acontec...

(Um sinal de interrupção)

- As boas meu neto!

            Olhou sem entender nada, pensou um pouco, queria contar tudo o mais rápido que podia, aconteceu tanta coisa, não conseguia organizar as lembranças e queria contar tudo que aconteceu, fazia anos que não conversava com ela. Respirou fundo, olhou e lá estava, seus olhos fixos, aquele jeito calmo, firme, sorridente. Não recordava que se lembrava tanto dela, fazia tanto tempo, anos foram passando e tudo ali foi ganhando pequenas formas conseguiu organizar as coisas, todavia contou tudo de forma desordenada.

- Hoje em dia tomo café duas vezes por dia, não tenho mais problemas para comer, parei de fumar, estou bebendo menos, vovô é uma pessoa legal, terminei a faculdade, virei professor, sinto falta de você toda vez que passo pelo portão de casa, falta algo ali, ganhei um sobrinho, conheci alguns lugares bonitos, virei capoeirista e não sou mais tão fã do biscoito da vaquinha como antes vó.

- Continua meu amor...

- Eu queria te dizer obrigado vó, de todas as coisas que eu tenho para te dizer entre desculpas, perdão e saudades. Esse é o mais importante, obrigado por ter feito de tudo para me ajudar, até nos dias que eu menos merecia. Queria dizer que eu sempre vou lembrar de você, não lembro mais da sua voz, não lembro do seu cheiro, nem das roupas, lembro da geleia de ameixa, dos lanches, do café da tarde, das preocupações quando eu chegava tarde. Da pergunta de sempre assim que eu passava pelo portão quebrado – Vai almoçar? -, mas eu esqueci muita coisa também, não queria, me perdoa!

Parou de falar, olhou para ela, estava tudo ali, os óculos redondos em armação antiga, o cabelo grisalho e liso, o sorriso toda vez que ia falar, o jeito calmo de se movimentar, devagar, serena e sossegada. Das poucas lembranças que ficaram, a calma que sua avó passava era a parte mais marcante.

- E agora vó, como vai ficar tudo?

- Não vai meu neto, eu passei. Quando a gente morre dá espaço para outra pessoa, a vaga é preenchida no mundo real, sobra só uma no estacionamento da saudade.

- Espero que você esteja feliz no céu vó.

- Você é ateu garoto!

- Você não era, minha tia e minha prima não são, nessa disputa eu prefiro deixar vocês ganhando.

- Fica bem meu neto!

- Fico sim vó...pode deixar.

            Acordou no susto, olhou o relógio e estava atrasado, lançou as notas, correu o mais rápido que pode, por sorte as malas já haviam sido preparadas, passou pelo portão, atravessou o corredor, perdeu um tempo no portão que não possuía mais a fechadura quebrada, foi até a varanda, abriu o último portão, o quintal estava limpo. Olhou para a esposa, com todo o carinho possível. Estava indo viajar para terminar seu doutorado. Sua tese sobre a sincronia entre o espaço e tempo havia sido aceita. Passaria um tempo fora, ao ir até a padaria, olhou a senhora que havia feito seu casamento, acenou.

- Vai viajar hoje Hugo?

- Sim, volto em 6 meses!

- Goubar vem dar tchau para o Hugo!

- Tchau tio, boa viagem.

- Quando eu voltar você já vai está inscrito na faculdade né? Espero ser seu professor.

- Não sei, minha avó está perturbando para eu me inscrever, mas estou pensando ainda.

- Aproveita ela rapaz, companhia de avó é uma coisa boa, a minha foi embora, não lembro muito dela, mas algumas coisas ficaram, a sua avó me lembra muito a minha.

- hmmmm, beleza cara.

- Tenho saudade dos cafés da tarde até hoje com ela, do Cream Cracker de ameixa e do sorriso no rosto. Vou indo lá, até breve...

            Tempo é uma brincadeira consecutiva de diversas coisas, quase tudo não faz, não tem ou perde o sentido com ele. Já parou para pensar o quanto do seu antigamente permanece nos dias hoje?