sexta-feira, 11 de junho de 2021

A partida

 

Palíndromo são palavras, frases ou imagens que podem ser lidas de trás para frente e permanecem com seu sentido. Aqui os clichês, Hannah, Ana, Otto, Natan, oro, Omo, ixi e etc.Um palíndromo de maneira reflexiva pode ser aquilo que a gente já sabe o resultado, olhar uma palavra que começa e termina da mesma forma pode ser previsível, é isso e acabou. Tudo esclarecido, nada de surpresas, de novidades, o eterno problema da humanidade respondido em poucas palavras. Eu sei onde isso aqui vai acabar.

Imaginem que um dia uma nave resolva pousar na Terra, um extraterrestre e seu companheiro resolvam ensinar a humanidade uma nova forma de ver o tempo. Agora tudo não é mais linear, Descartes acaba de perde a queda de braço para Einstein, tudo agora é dimensional, o ali e o agora acontecem ao mesmo tempo, o começo, meio e fim simplesmente deixam de ter divisões. Você sabe exatamente o que precisa fazer, pois diferente do que é proporcionado pela vida, agora obtemos a chance da repetição e consequentemente do sucesso, você começa a passear entre o antes, durante, o aqui e o depois. Tudo seria um passado-recentemente e Marc Bloch saberia que ao terminar de escrever “O Ofício do Historiador” seria morto num campo de concentração nazista. Fica a pergunta se ele escreveria o livro se soubesse do seu final, o desanimo bateria? A vontade de ocupar seu breve tempo com algo falaria mais alto? Fosse com a gente? Quanto tempo levaria para sorrir se soubesse que uma situação fosse fazer a gente feliz? Como seria nossa reação ao ter que lidar com alguém triste? Aquela pergunta complica - um aluno meu perguntou o motivo de andar de joelhos quando imita o gato, porém o gato não anda de joelhos -, nesse dia fiquei sem saber o que falar, voltei para casa pensando em qual resposta daria, afinal crianças costumam perguntar a mesma em outros momentos. Até hoje não sei.

O quanto a gente mudaria se soubesse o caminho a seguir? Um palíndromo torna tudo fixo, mas em todos os casos a ideia que nada é permanente e tudo muda continua aí, Heráclito e seu rio não conheceram palíndromos, mas o quanto de mudança nossa natureza permanente vem passando? Qual ponto de melhoria seu reflexo mostrou no rio?

terça-feira, 1 de junho de 2021

Portaria

Tocar o interfone, falar alto - vô!
Escutar - Prontoooo!
Tranca desbloqueia, passo pelo portão
Olho as plantas, abro a porta, subo as escadas

- Olá meu querido! Como andas?
- Estou bem, como estão as coisas?
- Entra, que bom que você veio.
O caminhar calmo, já andava com certa dificuldade, mas nunca parava.

Depois desse portão era tudo um retorno, uma acolhida, uma pausa no tempo.
Conversas trocadas, o café passado.
Eu sempre duro, não na queda, mas no jeito.
Ele sempre brincalhão e firme.

Virei um predicado nominal, depois do seu último verbo de ação.
Sempre estou.
Depois desse portão, tomei café, sorri, busquei abraço e bronca.

Carrego uma mochila com um mapa
Descobri que saudade vira tristeza 
- Não cabe mais.
Não odeio mais café.

Recentemente entre um bolo de cenoura com calda de chocolate
Perguntaram se eu queria café, respondi que não tomava.
Lembrei de você na hora e sorri.
Comi o bolo.  

No passar do barco do Valtari não encontrei mais tristeza
Ainda tenho saudade, pouco falo de você e muito lembro
Guardei comigo e pra mim as lembranças, reli nossos últimos e-mails.
Repito hoje sua despedida repetida. - Do neto que te quer bem e te ama. Seja lá aonde você estiver.

domingo, 23 de maio de 2021

Meu mestre de capoeira

Gostei da composição que vi no treino por acaso- a gente perde umas coisas em formatos maneiros por conta da rotina-, pensei eu depois que cheguei em casa, há um tempo aprendi a armar berimbau, porém tenho certo receio, pois quebro verga com rotina devido ao excesso de força e falta de jeito. 

Meu mestre já ensinou várias formas de armar e minimizar a possibilidade disso acontecer, meu mestre ensina tudo do contexto da capoeira na medida do possível, anel da cabaça, barbante da corda, como fazer um arame, como raspar a verga com caco de vidro sem se machucar, qual parte da garrafa quebrada é o com maior apoio, firmeza e raspa mais a verga. 

O mesmo me ensinou as bases de um alongamento, a partir disso eu faço alongamento todos os dias, em qualquer lugar e sempre que dá. Eu era todo atrofiado e encurtado devido ao tempo de hipertrofia na época da academia. Graças a ele eu aprendi a tocar pandeiro, berimbau e os instrumentos da bateria de capoeira, quem me conhece de perto, sabe toda a minha dificuldade de coordenação motora, ritmo e música. Hoje em dia, graças a ele eu consigo cantar um repertório musical extenso, entre músicas de capoeira e as infantis.
 
Quem conhece tem o costume de dizer do jogo ser elegante, na minha opinião é o saber se comportar nos locais, falo para ele com regularidade. A qualidade mais forte são os fundamentos, os que ele permanece realizando na capoeira, os que são resgatados, por ser coerente com a filosofia dele.  Os dele mesmo: "Quero o jogo plástico, eficiente, curtam o jogo, joguem com a pessoa e não contra ela."
Meu mestre saiu de uma cidade do interior da Paraíba, pra melhorar de vida, aquelas histórias romantizadas nas novelas são reais, eu só conhecia por ficção. E aí ele me mostrou que estão aos montes pelas comunidades do RJ.

Trabalhar com capoeira só acontece hoje, pois têm 10 anos de conserto e lapidação aqui. Eu ia largar a capoeira por ter muita dificuldade e ver coisas desnecessárias. Só continuei até hoje por conta dele, por um desvio no caminho da faculdade. Tem muito do que ele me ensina por aqui.

Todo aluno deveria ter essa letra em mente - Mas se precisar de mim oh meu mestre? Manda me chamar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Quando o Brasil pegou governit-19

 Somos o país que o pecado não chegou. Mataram, roubaram, escravizaram, entubaram e deixaram a mingua, outro zé no asfalto. Éramos muitos, um tempo depois milhares, somos o país que começou na chegada dos portugueses - assim dizem eles -, entramos na dúvida se recebemos o nome pelo produto econômico de cor vermelha, ou por um explorador fenício, ao fim recebemos o título dos trabalhadores de uma extração saqueada de madeira - nosso primeiro registro de CLT na modalidade moderno, pagamento por destruição - digo produção. 

Conta a historiografia portuguesa que fomos conquistados, na brasileira descobertos. Cada um aceita a versão que achar mais melhor de bom, todavia esquecemos da Rebelião de Vila Rica, da Inconfidência Baiana, esquece a mineira, tudo farinha do mesmo saco que votaria no Capitão Cloroquina do seu tempo, chama o povo da balaiada, sabinada, não esqueça dos lanceiros negros entregues à morte pelos revolucionários farroupilhas. Chegamos ao Império brasileiro com um português no poder, a República em um golpe, mais um de outros tantos, mas caso queira recordar a cara de taxo do Imperador intelectual do Brasil, vá até o museu Imperial de Petrópolis!

Formos comparar o Brasil político com a atualidade do mundo é simples. O distanciamento social seria o Ciro - quanto mais longe do Coronelismo melhor. Lula seria o respirador - a última salvação para alguém catatônico -, Bolsonaro seria o cancro do Brasil, o roubo, o jeitinho brasileiro que nasceu no Brasil Colônia, a ideia fajuta de que as leis não atingem todos, são frouxas para alguns e pesadas para outros. No condomínio da Zona Sul se toca a campainha, no portal atemporal da verdadeira realidade brasileira é na bala e caveirão. 

Cada respirador superfaturado, remédio comprado de forma errada, dinheiro guardado na caixa de Pandora que foi soterrando a esperança do brasileiro para um dia melhor. A vacina do Brasil não vem na próxima remessa da China, nem na mochila das ideias Russas da Sputink-V. Entre Freixos e frouxos, ficamos a mercê de implacáveis Dórias, despotistas iluminados ou invasores da Magna Grécia, eternos espartanos na luta pela vitória de novas Covas e Paes. 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Seja algo apesar do agora.

 Aceitável é acordar cansado depois do dia anterior ser pesado, aceitável é abrir um pouco o cinto após uma feijoada, comer mais um pedaço de carne só de olho grande, comer um pacote de biscoito recheado, ou 3. Aceitável é olhar o quarto bagunçado por conta da correria da semana, aceitável é aceitar que nem sempre vai dar tempo de encontrar todo mundo que a gente quer. Aceitável é olhar as coisas e pensar - até que poderia tá pior. Aceitável é ouvir a mesma música por horas, pois gostou do embalo que ela da no dia, aceitável é ficar rolando a tela do Netflix e não saber o quer ver. 

Aceitável é tudo aquilo que não maltrata a gente.

Inaceitável é tomar um remédio errado e ter o coração parado, inaceitável é ver um remédio ser manipulado e posto para algo que ele não tem serventia, inaceitável é ver um remédio destruir seu fígado por sobrecarga. Inaceitável é ver a violência entrando pela janela de casa, pela porta do vizinho ou no beco mais próximo. Inaceitável é ouvir várias músicas que contam a realidade e só focar na batida/ritmo. 

Inaceitável é tudo aquilo que maltrata a gente.

É inaceitável achar aceitável o simbolismo infernal de viver com uma gravata apertada no pescoço, um sapato novo que machuca o dedo mindinho, o sutiã desconfortável, a pessoa que não para de falar sobre algo que não serve de nada na nossa vida, inaceitável é um animal que fala cuestão em rede nacional.

Aceitável é o almoço em família em pleno dia de semana, caso não consiga, final de semana serve também. É ver desenho no meio da semana, dormir junto com quem a gente gosta, dar uma aula diferente para seus alunos e notar uma luz brotando no olho da criança por sair da rotina estudantil.

Por últimos e os primordiais. Aceitável é não ser uma bosta de ser humano com o passar do tempo, dá sempre pra melhorar um pouco.

Inaceitável é continuar vivendo após esses últimos dois anos, 2020/2021 e continuar sendo mais um bosta nesse mundo. Todo brasileiro tem total consciência de como ser um humano imundo traz mazela pra vida. É melhor ser a pessoa que usa a perna pra empurrar a pessoa para cima, rasteira só é divertida na roda de capoeira.