quinta-feira, 1 de julho de 2021

Mnemósine

A correria do dia faz a gente não notar algumas coisas, a correria dá uma embaralhada na mente.

A gente não morre por conta de um luto, lidar com ele é de certa forma aquele cisco no olho depois da ventania, incomoda, faz lacrimejar, de vez em quando a gente chora, caso não consiga tirar, finge que não está incomodado, quando está, lançamos aquela esfregada no olho com raiva, não resolvido, ao fim jogamos água no rosto para ver se para de encher - de tristeza ou o saco . Perder alguém é falar que o tempo passou rápido demais, mas o dia acompanhado da lembrança de quem já foi resolveu ir devagar. Vão fazer três meses, nem parece, quando vai ver já foi um ano, dois, 8 ou 13. Vai chegar o tempo que vou trocar palavras, por números. Um lado é bom, vou dizer que superei, outro vai dizer que me acostumei, essa balança vai pesar sempre para o momento que a correria não existir, outra pessoa próxima for, pois o balde já transbordava e uma gota a mais é maremoto de lembranças - sorrisos e lágrimas são consequências do momento. 

Ver alguém ir é saber, de certa forma que alguma coisa mudou né? Aquele velho uso literário do "deixam um pouco de si, levam um pouco de nós", uma banda de música, uma palavra, um hábito, um costume, pôr o feijão por cima do arroz, pegar tudo com o pé, se interessar por musicalidade, rir com vontade, cantar:

Vem jogar mais eu, vem jogar mais eu, mano meu

Memória e lembrança são a mesma deusa, memória a gente esquece e cria outra, diz a História, lembrança não. Lembrar é algo particular, propriedade privada e sem devolução. Acho que uma é a face da deusa de bom humor, a outra nem sempre está satisfeita.

Luto pode ser o estado que a gente se encontra quando está superando quem resolveu partir e deixou uma bagagem na última estação. Luto também pode ser mesmo com tristeza, saudade e outras coisas. Luto! pode ser o seguir em frente quando lembra da pessoa sorrindo e percebe que depois que elas foram, continuam por aqui em cada pedaço que ficaram. É saber que está mais forte, porque agora não é só por si é por nós.

Meu casuá tem varanda,

varanda pra vadear, ê varanda boa o iáá,

varanda pra vadear

ê varanda boa iáá

Simbora!


quinta-feira, 24 de junho de 2021

Quando ela vem


Saiba mulher que quando tu vens
Eu vou chegando
Pq eu gosto das tuas chegadas
Cada chegada um aconchego

Como já dizia Chico Buarque
Nas páginas de Leite Derramado
Se soubesse como gosto das suas chegadas
Chegaria todo dia.

Chico Buarque não sabe
Mas cada chegada sua
Eu me chego e aconchego em você.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Foto notícia

Informação é poder as pessoas dizem, tenho o hábito de ver jornal como se fosse seriado, escuto todo dia, quando não consigo, baixo o episódio do dia que perdi e depois coloco em dia. Para não perder o rumo geral das informações que andam acontecendo.

De vez em quando dou uma pausa, a cabeça fica pesada, a quantidade de notícias da uma embrulhada na mente e no estômago, principalmente as desse ano. Notei que lidar com as notícias do jornal entram na mesma direção das que registro todos os dias pela janela dos meus olhos. O jornal relata o número de contágios subindo; estou eu no 397 indo ao trabalho, o transporte é público, mas a empresa particular, os bancos todos destruídos, o ferro de apoio quebrado, o veículo claramente não vê manutenção há tempos, mas a passagem só aumenta, já faz um tempo que noto a qualidade da viação descendo ladeira abaixo. Começa pelo piloto que precisa encarar engarrafamento, trânsito, fazer conta, dar a seta, ouvir xingamento e de vez em quando responder o “bom dia”.

Eu vejo as pessoas que antes usavam máscara deixando de lado, pego o mesmo ônibus constantemente e consigo gravar alguns rostos. Em outro episódio vem a notícia que o desemprego aumenta e o número de informais cresce mais; pela janela do busão eu noto a galera vendendo café e biscoito nas vias paradoras e expressas da Brasil. Hoje o rapaz do guarda-sol azul levou o filho e atravessava a rua no meio do engarrafamento, recordo que falaram que a pandemia tinha vindo para mostrar para ser humano como é ter empatia e união. Que nossas ações afetam diretamente o próximo. Não precisava de pandemia para isso era só notar o bloqueio no trânsito até Deodoro, quando alguém na passarela 26 resolve mudar de faixa, já que ele é o centro do universo e não o sol.

Lembro de ter concluído que 2021 havia me tirado a graça de viver, percebi que o excesso de informação ajudava, afinal escutava péssimas notícias e de vez em quando elas entraram pela porta da frente por aqui. Estabeleci objetivos e falei que tinha que sobreviver, percebi um leve engano, objetivo a gente deixa de lado quando bate o desânimo, sonho não, mas esse eu ainda não sei explicar direito não, me faltam algumas palavras.


sexta-feira, 11 de junho de 2021

A partida

 

Palíndromo são palavras, frases ou imagens que podem ser lidas de trás para frente e permanecem com seu sentido. Aqui os clichês, Hannah, Ana, Otto, Natan, oro, Omo, ixi e etc.Um palíndromo de maneira reflexiva pode ser aquilo que a gente já sabe o resultado, olhar uma palavra que começa e termina da mesma forma pode ser previsível, é isso e acabou. Tudo esclarecido, nada de surpresas, de novidades, o eterno problema da humanidade respondido em poucas palavras. Eu sei onde isso aqui vai acabar.

Imaginem que um dia uma nave resolva pousar na Terra, um extraterrestre e seu companheiro resolvam ensinar a humanidade uma nova forma de ver o tempo. Agora tudo não é mais linear, Descartes acaba de perde a queda de braço para Einstein, tudo agora é dimensional, o ali e o agora acontecem ao mesmo tempo, o começo, meio e fim simplesmente deixam de ter divisões. Você sabe exatamente o que precisa fazer, pois diferente do que é proporcionado pela vida, agora obtemos a chance da repetição e consequentemente do sucesso, você começa a passear entre o antes, durante, o aqui e o depois. Tudo seria um passado-recentemente e Marc Bloch saberia que ao terminar de escrever “O Ofício do Historiador” seria morto num campo de concentração nazista. Fica a pergunta se ele escreveria o livro se soubesse do seu final, o desanimo bateria? A vontade de ocupar seu breve tempo com algo falaria mais alto? Fosse com a gente? Quanto tempo levaria para sorrir se soubesse que uma situação fosse fazer a gente feliz? Como seria nossa reação ao ter que lidar com alguém triste? Aquela pergunta complica - um aluno meu perguntou o motivo de andar de joelhos quando imita o gato, porém o gato não anda de joelhos -, nesse dia fiquei sem saber o que falar, voltei para casa pensando em qual resposta daria, afinal crianças costumam perguntar a mesma em outros momentos. Até hoje não sei.

O quanto a gente mudaria se soubesse o caminho a seguir? Um palíndromo torna tudo fixo, mas em todos os casos a ideia que nada é permanente e tudo muda continua aí, Heráclito e seu rio não conheceram palíndromos, mas o quanto de mudança nossa natureza permanente vem passando? Qual ponto de melhoria seu reflexo mostrou no rio?

terça-feira, 1 de junho de 2021

Portaria

Tocar o interfone, falar alto - vô!
Escutar - Prontoooo!
Tranca desbloqueia, passo pelo portão
Olho as plantas, abro a porta, subo as escadas

- Olá meu querido! Como andas?
- Estou bem, como estão as coisas?
- Entra, que bom que você veio.
O caminhar calmo, já andava com certa dificuldade, mas nunca parava.

Depois desse portão era tudo um retorno, uma acolhida, uma pausa no tempo.
Conversas trocadas, o café passado.
Eu sempre duro, não na queda, mas no jeito.
Ele sempre brincalhão e firme.

Virei um predicado nominal, depois do seu último verbo de ação.
Sempre estou.
Depois desse portão, tomei café, sorri, busquei abraço e bronca.

Carrego uma mochila com um mapa
Descobri que saudade vira tristeza 
- Não cabe mais.
Não odeio mais café.

Recentemente entre um bolo de cenoura com calda de chocolate
Perguntaram se eu queria café, respondi que não tomava.
Lembrei de você na hora e sorri.
Comi o bolo.  

No passar do barco do Valtari não encontrei mais tristeza
Ainda tenho saudade, pouco falo de você e muito lembro
Guardei comigo e pra mim as lembranças, reli nossos últimos e-mails.
Repito hoje sua despedida repetida. - Do neto que te quer bem e te ama. Seja lá aonde você estiver.

domingo, 23 de maio de 2021

Meu mestre de capoeira

Gostei da composição que vi no treino por acaso- a gente perde umas coisas em formatos maneiros por conta da rotina-, pensei eu depois que cheguei em casa, há um tempo aprendi a armar berimbau, porém tenho certo receio, pois quebro verga com rotina devido ao excesso de força e falta de jeito. 

Meu mestre já ensinou várias formas de armar e minimizar a possibilidade disso acontecer, meu mestre ensina tudo do contexto da capoeira na medida do possível, anel da cabaça, barbante da corda, como fazer um arame, como raspar a verga com caco de vidro sem se machucar, qual parte da garrafa quebrada é o com maior apoio, firmeza e raspa mais a verga. 

O mesmo me ensinou as bases de um alongamento, a partir disso eu faço alongamento todos os dias, em qualquer lugar e sempre que dá. Eu era todo atrofiado e encurtado devido ao tempo de hipertrofia na época da academia. Graças a ele eu aprendi a tocar pandeiro, berimbau e os instrumentos da bateria de capoeira, quem me conhece de perto, sabe toda a minha dificuldade de coordenação motora, ritmo e música. Hoje em dia, graças a ele eu consigo cantar um repertório musical extenso, entre músicas de capoeira e as infantis.
 
Quem conhece tem o costume de dizer do jogo ser elegante, na minha opinião é o saber se comportar nos locais, falo para ele com regularidade. A qualidade mais forte são os fundamentos, os que ele permanece realizando na capoeira, os que são resgatados, por ser coerente com a filosofia dele.  Os dele mesmo: "Quero o jogo plástico, eficiente, curtam o jogo, joguem com a pessoa e não contra ela."
Meu mestre saiu de uma cidade do interior da Paraíba, pra melhorar de vida, aquelas histórias romantizadas nas novelas são reais, eu só conhecia por ficção. E aí ele me mostrou que estão aos montes pelas comunidades do RJ.

Trabalhar com capoeira só acontece hoje, pois têm 10 anos de conserto e lapidação aqui. Eu ia largar a capoeira por ter muita dificuldade e ver coisas desnecessárias. Só continuei até hoje por conta dele, por um desvio no caminho da faculdade. Tem muito do que ele me ensina por aqui.

Todo aluno deveria ter essa letra em mente - Mas se precisar de mim oh meu mestre? Manda me chamar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Quando o Brasil pegou governit-19

 Somos o país que o pecado não chegou. Mataram, roubaram, escravizaram, entubaram e deixaram a mingua, outro zé no asfalto. Éramos muitos, um tempo depois milhares, somos o país que começou na chegada dos portugueses - assim dizem eles -, entramos na dúvida se recebemos o nome pelo produto econômico de cor vermelha, ou por um explorador fenício, ao fim recebemos o título dos trabalhadores de uma extração saqueada de madeira - nosso primeiro registro de CLT na modalidade moderno, pagamento por destruição - digo produção. 

Conta a historiografia portuguesa que fomos conquistados, na brasileira descobertos. Cada um aceita a versão que achar mais melhor de bom, todavia esquecemos da Rebelião de Vila Rica, da Inconfidência Baiana, esquece a mineira, tudo farinha do mesmo saco que votaria no Capitão Cloroquina do seu tempo, chama o povo da balaiada, sabinada, não esqueça dos lanceiros negros entregues à morte pelos revolucionários farroupilhas. Chegamos ao Império brasileiro com um português no poder, a República em um golpe, mais um de outros tantos, mas caso queira recordar a cara de taxo do Imperador intelectual do Brasil, vá até o museu Imperial de Petrópolis!

Formos comparar o Brasil político com a atualidade do mundo é simples. O distanciamento social seria o Ciro - quanto mais longe do Coronelismo melhor. Lula seria o respirador - a última salvação para alguém catatônico -, Bolsonaro seria o cancro do Brasil, o roubo, o jeitinho brasileiro que nasceu no Brasil Colônia, a ideia fajuta de que as leis não atingem todos, são frouxas para alguns e pesadas para outros. No condomínio da Zona Sul se toca a campainha, no portal atemporal da verdadeira realidade brasileira é na bala e caveirão. 

Cada respirador superfaturado, remédio comprado de forma errada, dinheiro guardado na caixa de Pandora que foi soterrando a esperança do brasileiro para um dia melhor. A vacina do Brasil não vem na próxima remessa da China, nem na mochila das ideias Russas da Sputink-V. Entre Freixos e frouxos, ficamos a mercê de implacáveis Dórias, despotistas iluminados ou invasores da Magna Grécia, eternos espartanos na luta pela vitória de novas Covas e Paes. 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Seja algo apesar do agora.

 Aceitável é acordar cansado depois do dia anterior ser pesado, aceitável é abrir um pouco o cinto após uma feijoada, comer mais um pedaço de carne só de olho grande, comer um pacote de biscoito recheado, ou 3. Aceitável é olhar o quarto bagunçado por conta da correria da semana, aceitável é aceitar que nem sempre vai dar tempo de encontrar todo mundo que a gente quer. Aceitável é olhar as coisas e pensar - até que poderia tá pior. Aceitável é ouvir a mesma música por horas, pois gostou do embalo que ela da no dia, aceitável é ficar rolando a tela do Netflix e não saber o quer ver. 

Aceitável é tudo aquilo que não maltrata a gente.

Inaceitável é tomar um remédio errado e ter o coração parado, inaceitável é ver um remédio ser manipulado e posto para algo que ele não tem serventia, inaceitável é ver um remédio destruir seu fígado por sobrecarga. Inaceitável é ver a violência entrando pela janela de casa, pela porta do vizinho ou no beco mais próximo. Inaceitável é ouvir várias músicas que contam a realidade e só focar na batida/ritmo. 

Inaceitável é tudo aquilo que maltrata a gente.

É inaceitável achar aceitável o simbolismo infernal de viver com uma gravata apertada no pescoço, um sapato novo que machuca o dedo mindinho, o sutiã desconfortável, a pessoa que não para de falar sobre algo que não serve de nada na nossa vida, inaceitável é um animal que fala cuestão em rede nacional.

Aceitável é o almoço em família em pleno dia de semana, caso não consiga, final de semana serve também. É ver desenho no meio da semana, dormir junto com quem a gente gosta, dar uma aula diferente para seus alunos e notar uma luz brotando no olho da criança por sair da rotina estudantil.

Por últimos e os primordiais. Aceitável é não ser uma bosta de ser humano com o passar do tempo, dá sempre pra melhorar um pouco.

Inaceitável é continuar vivendo após esses últimos dois anos, 2020/2021 e continuar sendo mais um bosta nesse mundo. Todo brasileiro tem total consciência de como ser um humano imundo traz mazela pra vida. É melhor ser a pessoa que usa a perna pra empurrar a pessoa para cima, rasteira só é divertida na roda de capoeira.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Beleza

 


Apegar-se aos detalhes,

Uma zoação no meio da tarde.

A conversa entre a cozinha e sala durante o café.

Ficar jogado no sofá olhando o quadrado moldurado da janela

A falta de frase enquanto fica observando os trejeitos da pessoa

Notar as particularidades: 

o jeito que ela sorrir, 

o modo que ela anda, tropeça e se enrola ao fazer algo

O jeito de prender o cabelo para cima,

O modo que a beleza faz ela ficar linda quando solta o cabelo "que cresce cada dia mais".

O jeito que ela faz uns barulhos como se estivesse ronronando

Olhar a pessoa todo o dia?

E cada dia que passa ela fica mais bonita.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Montei um corpo

O que é saudade? Saudade é seu professor falar que tem uma foto com todos os amigos e só ele sobrou. É quando Chico Buarque fala que é arrumar o quarto do filho que já se foi. Saudade é quando a viúva pergunta ao marido o que será da vida dela quando ele partir e ele dizer que será o que ela quiser.
É virar um Frankenstein, não saber se é criador ou criatura. 
Saudade é montar um corpo com peças de lembranças:
Um sorriso ali.
Uma gargalhada particular da pessoa.
O jeito que ela monta o prato ou belisca.
Saudade é o abraço que não vai mais acontecer.
Aquela frase que ficou faltando.
É esperar a semana toda pra encontrar quem gosta.
Saudade é lembrar da pessoa na mesa no meio da calçada.
Saudade é saber que alguém vai ali, mas não volta já.
É a demora que nem o tempo leva.
Saudade é o que não contaram na aula de matemática quando vão ensinar soma e multiplicação.
É o verbo na aula de português, o primeiro que a gente procura e forma oração.
Um dia de chuva, mata escura e guardo aqui dentro.
Saudade é lembrar da pessoa na mesa com os amigos.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Quando os olhos se encontram

 Descobri que me tornei uma pessoa mais triste nesses últimos tempos. Andei pensando sobre como é viver depois que a gente perde algumas pessoas. Todo o dia me vem isso na mente, não é uma questão de superar, o blábláblá do "Deixa a pessoa seguir", ou como disse Contardo Calligaris à sua esposa ao ser perguntado o que seria da vida dela após sua morte e ele disse - O que você quiser que seja. Perder pessoas faz a gente ficar mais triste, não posso dizer mais velho, mas mais triste hoje tenho certeza.

Quase todos os dias rememoro coisas que me ligam aos que já não estão mais aqui. Coloco o feijão por cima do arroz, pois uma vez brinquei com meu avô sobre esse costume dele, com a cara mais zangada do mundo ele me disse, o feijão é para molhar o arroz, não para afogá-lo. Experimenta um dia e veja a diferença, passados alguns anos, cá estou eu colocando o feijão sempre por cima do arroz e ao contrário acho estranho. Minha avó sempre tinha uma brincadeira de ficar me beliscando quando eu era mais novo, com a mão, ou com o pé, a brincadeira do pim, ou vinha com o dedão, o indicador do pé e tascava um beliscão na minha perna. Hoje em dia pego tudo com o pé, não tenho o hábito de pegar as coisas com a mão quando caem, já vou direto usando o pé. Descobri que toda vez que toco pandeiro ou escuto música de capoeira lembro do meu amigo.

Essas últimas semanas caiu a ficha que não sei mais rir como antigamente, estou mais triste, não que seja ruim, é só diferente. Com o passar do tempo a gente deixa de ser alegre, passa a ser satisfeito e se acostuma. Só que algo me diz, que eu sei disso, mas não devia. 2021 de longe está sendo o ano em que eu mais tenho perdido o tesão por ver o lado bom da vida. 

terça-feira, 30 de março de 2021

Quando os olhos se encontram

Odiei ser ateu por muito tempo, das piores coisas que a descrença me trouxe foi a percepção de não conseguir ver além daqui. Viver é isso, uma consequência sem explicação e motivo. Queria ter a certeza que depois daqui tudo acontece de outra forma, seja ela qual for. Continuo ateu, mas de um tempo para cá resolvi fazer à minha maneira.

Vou fazer diferente por agora.

Toda a pessoa que passou por aqui me ajudou em algo, com o exemplo de como ser um pouco melhor e outras de como eu não quero ser.

Meu amigo tinha um sorriso no rosto gigante, meu amigo era simples, tinha uma palavra positiva para todas as coisas, uma gargalhada que vinha lá de dentro, pois era fácil fazer ele rir. Meu amigo era o ponto que eu nunca tive - ele tentava ver o lado positivo de tudo. Uma vez em uma conversa entre uma cerveja e uma reclamação ele falou: - "Cara 1 ano que nada mudou", na mesma conversa falei que mudou: "pois mudança nem sempre é para melhor", ele olhou e riu. Era isso, eu sou a racionalidade e a razão. Depois sozinho me liguei que mudança para o Plínio era quando acontecia algo bom, antes disso era só a caminhada. Meu amigo falava com emoção sobre todas as coisas que ele queria fazer, todos os planos dele, sonhos e desejos. Com o passar do tempo comecei a pensar parecido com ele, mas agir de forma mais reprimida, meu amigo sem querer me ensinou a olhar as coisas de uma forma positiva. Passei o dia de ontem revendo nossas fotos de treino, todas ele sorria, um sorriso largo e que esticava a cara dele toda, um sorriso feliz, mesmo quando tudo estava desabando ele conseguia rir, sorrir e fazer sorrir. Lembrei do dia que paramos pra encher a cara e comer sardinha no meio da rua. Ele estava do mesmo jeito que nas fotos. Em quase 10 anos de convívio nunca vi o Plínio zangado por mais de 1 hora, ele levantava, sacudia a cabeça e seguia. Quando falava era depois de uma analise muito densa de tudo que viu. Meu amigo era sábio, a maturidade chegou cedo para ele. Obrigado por me ensinar tanto.

Receber a notícia que alguém morreu é estranho, entro no automático, tento ser racional e seguir a vida de uma forma natural, mas não é nada natural. Não vai ter mais a gargalhada, não vai ter mais as conversas no retorno do treino, não vou ouvir mais ele cantando, não vou ver mais ele jogando e fazendo todo mundo vibrar.

Mas vou continuar por aqui até onde der, combinamos de dar aula na mesma escola, fazer uma mistura com a matéria de Química e História , fazer uma roda de capoeira em cada lugar que a gente fosse trabalhar junto. Brinquei contigo da última vez falando que se você morresse eu te matava. Vou seguir nossos planos, só me lembra de tudo que me ensinou quando eu tropeçar e me faz voltar para os nossos planos.

Término aqui como tudo começou. Pela capoeira:

"É saudade que bate no peito ê, saudade que bate e faz chorar"

Recomeço aqui. Como tudo começou:

Pensamento, vá na frente que eu chego depois Porque trago na lembrança, Os olhos que brilham, Quando de novo te encontram Pensamento, olho pro céu e vejo as estrelas, Na folhagem eu sinto o vento Dia de chuva mata escura Me guardo por dentro Caxixi cadê berimbau que estava aqui Estava assentado no chão Parecia um pé de milho Folguedo de Capoeira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira Xangô é Rei, São João Menino é da Fogueira

Simbora!



terça-feira, 16 de março de 2021

Colaboratividade

 Naturalizamos a barbaria dizem os jornais, as mortes pela Covid-19 não chamam mais atenção, todavia um processo como esse não nasceu entre 2020 e 2021.

Antes da morte existe a violência, no geral podemos dizer algumas que todo o brasileiro e vou me resumir ao carioca já sofreu:
Todo carioca já continuou andando ao escutar tiros, só se espanta com um tiroteio aquele carioca que descobre que a bala se torna achada. Quando entra em contato com alguma coisa, muro, teto, telha, varanda, braço, perna, pescoço ou uma criança no jornal, todo o resto é simplesmente uma bala perdida. Outro ponto, naturalizamos a violência que a gente causa no transporte público, pois qualquer pessoa já lutou por um lugar no trem expresso da Central, ficou se empurrando, grudado na porta, até que elas se abram e a luta começa, com seu semelhante do lado, pelo lugar do transporte público que deve se torna seu por algumas horas, caso você seja o lírio dourado do campo da meritocracia pós 8/10 horas de trabalho - esse é meu lugar! ninguém me tira!". Chegamos aos conceitos de propriedade privada temporário entre a Supervia ou Metrô Rio.
Dentro do ônibus é quando a gente finge que bateu o sono depois da feijoada, nesse caso, todo cidadão que entra no antigo rótulo de preferencial é o caldeirão de algum samba.
Eu gostaria de falar outras, mas existe um leque gigante aqui, essas são as que eu vejo sempre e me incomodo.
Já têm algumas semanas que vejo um garoto no trem do Ramal Santa Cruz vendendo bala, biscoito ou doce. Esse é mais velho que meus alunos das creches que trabalho, uns 3 anos, não acredito que ele tenha mais de 8 anos. Ele aos 7 trabalha horas no trem, outros estão aprendendo capoeira de forma pedagógica e me pergunto qual motivo aquele menino não deveria tá na escola e não ali. Vão dizer que é melhor ele trabalhando do que aprendendo besteira na rua. Sempre vou dizer que seria melhor ele estudando e não precisando trabalhar dentro de uma realidade que não faz parte da faixa-etária dele. Trabalhar é ótimo, mas o trem, a rua e a vida é um lugar violento. São necessárias escolas para proteger a nova geração da violência, a prova disso chegou com peso de cheque-especial para todos.
Transformamos a violência e morte em algo normal, pois já convivemos com ela todos os dias, naquele velho ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". A gente transformou a sociedade em um verdadeiro The Walking Dead, só esquecemos de olhar um ponto despercebido da série. Os zumbis vivem em harmonia sem se atacar e dividindo o alimento e os humanos?

quarta-feira, 10 de março de 2021

A navegar

 


Robert Owen teve uma sacada genial, resolveu criar em pleno século XIX uma fábrica que respeitasse o trabalhador. Trouxe uma certa dignidade para pessoas que trabalhavam 14-16 horas por dia em fábricas insalubres, lá se trabalhava 10 horas e se tinha uma qualidade de vida. Uma fábrica têxtil em plena Europa do século XVIII e XIX tem a mesma sensação que a falta de perspectiva de um país em uma plena pandemia descontrolada, mas isso é só uma metáfora tá?
Na minha cabeça esses dias pensei em como Owen poderia ter criado uma fábrica de molduras e não de tecidos. Mas...qual motivo de fabricar molduras? Para as lembranças.

Um almoço no shopping em plena quarta-feira. Uma moldura verde. Uma caminhada até a padaria conversando sobre as notícias do dia. Uma moldura amarela, uma ida ao pronto-socorro, moldura vermelha, pois ainda assim é uma lembrança. Um café no final de uma sexta-feira após uma longa conversa sobre o período militar, um abraço aperto entre a porta do corredor, seguido de um - a tarde foi ótima, volte sempre que quiser -, uma moldura de saudade. Um álbum de música, que tem um barco que a cada faixa vai navegando, lembrança é um barco em pleno mar, ora calmo, ora bravo a balançar.

Uma fábrica deveria trazer qualidade de vida ao seu redor para todos, receber um nome bem bonito e ter um verbete na entrada talhado em madeira. Fábrica do Recordar: "Caminhe por aqui, guardo um retrato teu e a saudade mais bonita."


sexta-feira, 5 de março de 2021

Minha lista de saudade

Queria ter tido mais tempo.

Não sei lidar com saudade, essa falta não me faz falta. Esse cansaço de não conseguir parar, essa vontade de ficar ali, no passado, sem me mexer, sem falar, só percebendo que a vida era melhor no antigamente, pois o hoje machuca. Queria te ver outra vez.

Não quero perde a lembrança da voz da pessoa amada depois que ela se foi, não quero deixar os dias monótonos de lado.

Descobri dois tipos de saudades. Há Mal-saudade e a Bem-saudade. 

Mal-saudade é aquela que da um nó na garganta, não passa, machuca e deixa a gente com o olho represado, aquela vontade de chorar que a gente não consegue soltar.

Bem-saudade é aquela da lembrança feliz, da que você lembra que valeu a pena cada dia, cada minuto. Que faz você rir no meio da rua, quando atravessa o sinal vermelho, que algumas pessoas não sabem o porquê daquele sorriso estampado no rosto, com àquela cara de criança arteira em plena sexta-feira de uma aula de capoeira. 

Mal-saudade é sentir solidão em um quarto escuro e saber que a pessoa amada nunca mais vai falar um: "que bom ver você!"

Não queria ter atualizada a minha lista de saudades, queria deixar ela num canto, naquele caderno esquecido que a gente para de usar. Meu amigo, minha avó, meu avô, cada um ali, não queria ver essa lista assim, cada um que vai, vai levando um pouco daqui também.

Ele ou ela, seja quem for a pessoa que você amar, depois da morte nunca mais volta.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Eu, vó ali e volto já

 Era uma tarde comum, estava indo para a faculdade, não havia nada de muito novo acontecendo. Eu ia viver aquele dia como o de costume, chegar na faculdade com sono, ressaca, um pouco cansado, iria fingir que a aula estava acontecendo, iria fingir que estava ali, nada mais. Tudo seguindo aquele padrão formal da vida de um rapaz que cresceu, mas não queria, quem nunca não?

*A gente nunca sabe de nada que está acontecendo, as vezes estamos cortando o pão e na nossa mente um vendável vem, mas a gente anda ocupado com as prioridades. Deveria ser prioridade dar uma pausada e perceber que sentir saudade também é uma prioridade. *

Fechou a apresentação, desligou o datashow e dispensou a turma. Estava pegando a mochila do chão quando o professor o chamou.

- O que anda acontecendo com você? Cada dia mais disperso na aula?

- Ando saindo muito, não estou com muita vontade de focar na faculdade agora.

- Criança você precisa entender que a faculdade não é uma brincadeira.

- Eu sei! Mas preciso me dar esse direito né. Prestar atenção na aula, tendo festa não dá.

- Você paga sua faculdade?

- Sim, mas eu tenho minha maneira de ver as coisas.

- Você está novo ainda, vai perder tempo de bobeira, pode conciliar as coisas, hoje é terça-feira e olha tua cara de acabado, bebeu à noite toda ou ficou na farra até de manhã?

- Posso ir professor? Você está parecendo minha vó falando e não é sua função ficar me alugando agora não.

- Vou descer a escada com você, minha esposa vai me encontrar aqui na frente e daqui vamos sair, preciso levar flores no cemitério.

- Legal! Meio exótico esse encontro.

Andaram calados até a saída da faculdade.

- Goubar se cuida, o período está acabando e no próximo semestre você não terá aula comigo, pois vou para a Inglaterra terminar o Doutorado.

- Preciso ir, sua esposa está ali. Vai lá!

Olhou Goubar andando e ficou parado um tempo. Era um menino dedicado no início, mas por algum motivo era um viajante na sua visão, sempre com um olhar perdido, naufragado, não conseguia chegar perto dele de forma nenhuma, mesmo quando mais novo, uma interrogação.

- O que foi Hugo?

- Goubar chegou novamente de ressaca, esse semestre ele não veio um dia para a aula normal, não sei como consegue pagar a faculdade e nem o motivo dele vir assim.

- Esse menino é daquela família da sua antiga rua, não é?

-  Sim...

Voltou caminhando para casa, não gostava de andar de ônibus e como sua casa ficava a pouco mais de 40 minutos da faculdade, sempre voltava andando, naquele dia estava um pouco frio, situação fora de costume, pois vivia em um dos bairros mais quente do Rio de Janeiro. Chegou em casa, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta e jogou a mochila no chão, tirou a roupa, deixou ela jogada na varanda e despencou de cueca no sofá. Já havia um tempo que passava por aquela situação, sentia uma agonia toda vez que abria o portão, não tinha mais frase a escutar, não tinha mais voz em cima do barulho do dia, não havia mais nada que se esperar. Era sempre a mesma coisa, a mesma repetição dos dias, nada fora do normal.

            Dormiu por algumas horas, acordou, tomou banho, foi até a padaria, acendeu um cigarro, fumou pelo caminho, comprou mais um maço, 4 pães e voltou para casa. Sentou no sofá novamente, pegou um livro – Gaia Ciência -, começou a ler, estudou por algumas horas, pontuou alguns trechos e foi conversar com a tia. Bateu um papo breve, não tinha muito o que falar, saiu para caminhar um pouco, viu uma criança brincando na ciclovia, um casal de idosos tomando uma cerveja no portão, um senhor caminhado de bengala. Acendeu outro cigarro, ficou observando tudo e não via nada. Resolveu voltar para casa, passou na venda, comprou algumas cervejas, iria dormir tarde e precisava de companhia na madrugada. Chegou em casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta, tirou a roupa, deixou-as jogadas na varanda, despencou no sofá, abriu uma lata e começou a beber. Minutos depois colocou as outras na geladeira, colocou uma música para tocar no Youtube - Valtari -, havia um tempo que escutava aquele álbum todo o dia. Possuía esse costume, ouvir o mesmo álbum ou música durante dias.

            O álbum começou a tocar, estava na cozinha, ao chegar no computador notou algo bem interessante, o barco ia mudando de lugar com o passar da música, era como se estivesse em alto mar, velejando entre o fato e a lembrança. Começou a relembrar coisas, algumas lá longe, profundas, o barulho calmo da música do Sigur Rós trazia tudo para fora, tudo que estava ali, balançou um pouco a cabeça, os olhos um tanto marejados, pegou uma vassoura e começou a varrer a casa, não queria pensar, não queria lembrar, não queria nada naquele dia.

            Acordou tarde novamente, limpou as latas da mesa do computador, percebeu que passou a madrugada bebendo, vendo fotos antigas e lendo alguns textos escritos a alguns anos, colocou o álbum para tocar novamente, ao jogar as latas na sacola lembrou de ser quarta-feira, dia de lixo, foi até a rua, deixou o lixo lá, olhou o quintal, muitas folhas no chão, precisava ir no mercado e na volta iria varrer todas as folhas. Hoje não seria um dia para ir até a faculdade, ver uma professora falar sobre tempo e suas consequências. Resolveu que iria matar a aula, já havia passado na matéria e não tinha motivos para perder tempo lá. Foi até o mercado, olhou a prateleira das geleias, fazia tempo que não comia biscoito Cream Cracker, com geleia de ameixa. Questionou quanto tempo, não lembrava, 9 anos talvez, um pouco mais, 11, um pouco menos 7, não recordava.

            Chegou em casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira porta, jogou as sacolas na varanda, despencou no sofá, pegou um biscoito e começou a comer. Alguns minutos depois se levantou, guardou tudo, olhou para o fichamento que fez no seu livro – Gaia Ciência -, pensou em ouvir música, mas precisava arrumar o quintal, estava entediado, cansado, pegou seu celular, colocou o fone de ouvido, música no aleatório, pegou a vassoura e foi. Passou pela varanda, abriu a primeira porta que antes foi a terceira, empurrou o portão com a fechadura quebrada, não precisava de esforço para tal, mais um portão, seguiu pelo corredor e começou a varrer.  

Imagine que um anjo passe por você no momento que estas varrendo o quintal. Naquele instante ele concedeu um desejo involuntário, criar um momento para algo que você nunca terá a chance de ver acontecer, daquele momento em diante você não está mais de camiseta largada, vassoura na mão, short velho, utilizado para ficar em casa e nada mais que isso. Você agora está de calça jeans, camisa básica azul, seus chinelos foram transformados em um tênis casual comprado para ir ao colégio, faculdade, ou em um bar e seu cabelo não está bagunçado. Aqui começa uma paráfrase do tempo, o tempo não existe já pensou nisso? A hora que bate no seu relógio é diferente de outro local, passado é tudo aquilo que já aconteceu e presente é um passado recente. É quando Nietzsche estabelece a quebra das nossas correntes, das nossas verdades e das nossas próprias dores, tempo está em tudo aquilo que a gente vive, ganhar ou perder tempo é uma questão de disposição e afeto. Tudo que aqui se vive, vai morrer, tudo que morreu, vai ser lembrado, por algum tempo, minutos, segundos, horas, dias, anos, em pequenos momentos, a voz vai sumindo, a lembranças vai ficando espaçada, a dor vai dando espaço para a rotina, um dia, só um dia, você fica chateado, pois lembra da ausência, porém lá no fundo você se torna uma outra pessoa. A verdade toda é que meu peito é uma porta entreaberta, de uma casa em luz baixa, tocando Vambora da Adriana Calcanhoto.

- Vem tomar café!

- Mas...você não está mais por aqui.

- Isso é só um momento meu neto, andou tanto tempo entre ontem e agora pensamento em mim que acabou acontecendo.

- Não tive a chance de te agradecer por tudo.

- Não tem problema, meu querido! Conta para a avó das coisas, mas só das boas hein!

- Ah vó! Acontec...

(Um sinal de interrupção)

- As boas meu neto!

            Olhou sem entender nada, pensou um pouco, queria contar tudo o mais rápido que podia, aconteceu tanta coisa, não conseguia organizar as lembranças e queria contar tudo que aconteceu, fazia anos que não conversava com ela. Respirou fundo, olhou e lá estava, seus olhos fixos, aquele jeito calmo, firme, sorridente. Não recordava que se lembrava tanto dela, fazia tanto tempo, anos foram passando e tudo ali foi ganhando pequenas formas conseguiu organizar as coisas, todavia contou tudo de forma desordenada.

- Hoje em dia tomo café duas vezes por dia, não tenho mais problemas para comer, parei de fumar, estou bebendo menos, vovô é uma pessoa legal, terminei a faculdade, virei professor, sinto falta de você toda vez que passo pelo portão de casa, falta algo ali, ganhei um sobrinho, conheci alguns lugares bonitos, virei capoeirista e não sou mais tão fã do biscoito da vaquinha como antes vó.

- Continua meu amor...

- Eu queria te dizer obrigado vó, de todas as coisas que eu tenho para te dizer entre desculpas, perdão e saudades. Esse é o mais importante, obrigado por ter feito de tudo para me ajudar, até nos dias que eu menos merecia. Queria dizer que eu sempre vou lembrar de você, não lembro mais da sua voz, não lembro do seu cheiro, nem das roupas, lembro da geleia de ameixa, dos lanches, do café da tarde, das preocupações quando eu chegava tarde. Da pergunta de sempre assim que eu passava pelo portão quebrado – Vai almoçar? -, mas eu esqueci muita coisa também, não queria, me perdoa!

Parou de falar, olhou para ela, estava tudo ali, os óculos redondos em armação antiga, o cabelo grisalho e liso, o sorriso toda vez que ia falar, o jeito calmo de se movimentar, devagar, serena e sossegada. Das poucas lembranças que ficaram, a calma que sua avó passava era a parte mais marcante.

- E agora vó, como vai ficar tudo?

- Não vai meu neto, eu passei. Quando a gente morre dá espaço para outra pessoa, a vaga é preenchida no mundo real, sobra só uma no estacionamento da saudade.

- Espero que você esteja feliz no céu vó.

- Você é ateu garoto!

- Você não era, minha tia e minha prima não são, nessa disputa eu prefiro deixar vocês ganhando.

- Fica bem meu neto!

- Fico sim vó...pode deixar.

            Acordou no susto, olhou o relógio e estava atrasado, lançou as notas, correu o mais rápido que pode, por sorte as malas já haviam sido preparadas, passou pelo portão, atravessou o corredor, perdeu um tempo no portão que não possuía mais a fechadura quebrada, foi até a varanda, abriu o último portão, o quintal estava limpo. Olhou para a esposa, com todo o carinho possível. Estava indo viajar para terminar seu doutorado. Sua tese sobre a sincronia entre o espaço e tempo havia sido aceita. Passaria um tempo fora, ao ir até a padaria, olhou a senhora que havia feito seu casamento, acenou.

- Vai viajar hoje Hugo?

- Sim, volto em 6 meses!

- Goubar vem dar tchau para o Hugo!

- Tchau tio, boa viagem.

- Quando eu voltar você já vai está inscrito na faculdade né? Espero ser seu professor.

- Não sei, minha avó está perturbando para eu me inscrever, mas estou pensando ainda.

- Aproveita ela rapaz, companhia de avó é uma coisa boa, a minha foi embora, não lembro muito dela, mas algumas coisas ficaram, a sua avó me lembra muito a minha.

- hmmmm, beleza cara.

- Tenho saudade dos cafés da tarde até hoje com ela, do Cream Cracker de ameixa e do sorriso no rosto. Vou indo lá, até breve...

            Tempo é uma brincadeira consecutiva de diversas coisas, quase tudo não faz, não tem ou perde o sentido com ele. Já parou para pensar o quanto do seu antigamente permanece nos dias hoje?