Era uma tarde comum, estava indo
para a faculdade, não havia nada de muito novo acontecendo. Eu ia viver aquele
dia como o de costume, chegar na faculdade com sono, ressaca, um pouco cansado,
iria fingir que a aula estava acontecendo, iria fingir que estava ali, nada
mais. Tudo seguindo aquele padrão formal da vida de um rapaz que cresceu, mas
não queria, quem nunca não?
*A gente nunca sabe de nada que
está acontecendo, as vezes estamos cortando o pão e na nossa mente um vendável
vem, mas a gente anda ocupado com as prioridades. Deveria ser prioridade dar
uma pausada e perceber que sentir saudade também é uma prioridade. *
Fechou a apresentação, desligou o datashow e dispensou a
turma. Estava pegando a mochila do chão quando o professor o chamou.
- O que anda acontecendo com você? Cada dia mais disperso na
aula?
- Ando saindo muito, não estou com muita vontade de focar na
faculdade agora.
- Criança você precisa entender que a faculdade não é uma
brincadeira.
- Eu sei! Mas preciso me dar esse direito né. Prestar
atenção na aula, tendo festa não dá.
- Você paga sua faculdade?
- Sim, mas eu tenho minha maneira de ver as coisas.
- Você está novo ainda, vai perder tempo de bobeira, pode
conciliar as coisas, hoje é terça-feira e olha tua cara de acabado, bebeu à noite
toda ou ficou na farra até de manhã?
- Posso ir professor? Você está parecendo minha vó falando e
não é sua função ficar me alugando agora não.
- Vou descer a escada com você, minha esposa vai me
encontrar aqui na frente e daqui vamos sair, preciso levar flores no cemitério.
- Legal! Meio exótico esse encontro.
Andaram calados até a saída da faculdade.
- Goubar se cuida, o período está acabando e no próximo
semestre você não terá aula comigo, pois vou para a Inglaterra terminar o
Doutorado.
- Preciso ir, sua esposa está ali. Vai lá!
Olhou Goubar andando e ficou parado um tempo. Era um menino
dedicado no início, mas por algum motivo era um viajante na sua visão, sempre
com um olhar perdido, naufragado, não conseguia chegar perto dele de forma
nenhuma, mesmo quando mais novo, uma interrogação.
- O que foi Hugo?
- Goubar chegou novamente de ressaca, esse semestre ele não
veio um dia para a aula normal, não sei como consegue pagar a faculdade e nem o
motivo dele vir assim.
- Esse menino é daquela família da sua antiga rua, não é?
- Sim...
Voltou caminhando para casa, não
gostava de andar de ônibus e como sua casa ficava a pouco mais de 40 minutos da
faculdade, sempre voltava andando, naquele dia estava um pouco frio, situação
fora de costume, pois vivia em um dos bairros mais quente do Rio de Janeiro.
Chegou em casa, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou
sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira
porta e jogou a mochila no chão, tirou a roupa, deixou ela jogada na varanda e
despencou de cueca no sofá. Já havia um tempo que passava por aquela situação,
sentia uma agonia toda vez que abria o portão, não tinha mais frase a escutar,
não tinha mais voz em cima do barulho do dia, não havia mais nada que se esperar.
Era sempre a mesma coisa, a mesma repetição dos dias, nada fora do normal.
Dormiu por
algumas horas, acordou, tomou banho, foi até a padaria, acendeu um cigarro,
fumou pelo caminho, comprou mais um maço, 4 pães e voltou para casa. Sentou no
sofá novamente, pegou um livro – Gaia Ciência -, começou a ler, estudou por
algumas horas, pontuou alguns trechos e foi conversar com a tia. Bateu um papo
breve, não tinha muito o que falar, saiu para caminhar um pouco, viu uma
criança brincando na ciclovia, um casal de idosos tomando uma cerveja no
portão, um senhor caminhado de bengala. Acendeu outro cigarro, ficou observando
tudo e não via nada. Resolveu voltar para casa, passou na venda, comprou
algumas cervejas, iria dormir tarde e precisava de companhia na madrugada.
Chegou em casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão,
empurrou sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a
terceira porta, tirou a roupa, deixou-as jogadas na varanda, despencou no sofá,
abriu uma lata e começou a beber. Minutos depois colocou as outras na
geladeira, colocou uma música para tocar no Youtube - Valtari -, havia um tempo
que escutava aquele álbum todo o dia. Possuía esse costume, ouvir o mesmo álbum
ou música durante dias.
O álbum começou
a tocar, estava na cozinha, ao chegar no computador notou algo bem
interessante, o barco ia mudando de lugar com o passar da música, era como se
estivesse em alto mar, velejando entre o fato e a lembrança. Começou a
relembrar coisas, algumas lá longe, profundas, o barulho calmo da música do
Sigur Rós trazia tudo para fora, tudo que estava ali, balançou um pouco a
cabeça, os olhos um tanto marejados, pegou uma vassoura e começou a varrer a
casa, não queria pensar, não queria lembrar, não queria nada naquele dia.
Acordou
tarde novamente, limpou as latas da mesa do computador, percebeu que passou a
madrugada bebendo, vendo fotos antigas e lendo alguns textos escritos a alguns
anos, colocou o álbum para tocar novamente, ao jogar as latas na sacola lembrou
de ser quarta-feira, dia de lixo, foi até a rua, deixou o lixo lá, olhou o
quintal, muitas folhas no chão, precisava ir no mercado e na volta iria varrer
todas as folhas. Hoje não seria um dia para ir até a faculdade, ver uma
professora falar sobre tempo e suas consequências. Resolveu que iria matar a
aula, já havia passado na matéria e não tinha motivos para perder tempo lá. Foi
até o mercado, olhou a prateleira das geleias, fazia tempo que não comia
biscoito Cream Cracker, com geleia de ameixa. Questionou quanto tempo, não
lembrava, 9 anos talvez, um pouco mais, 11, um pouco menos 7, não recordava.
Chegou em
casa novamente, abriu o portão, seguiu pelo corredor, mais um portão, empurrou
sem fazer grande esforço, pois a fechadura estava quebrada, abriu a terceira
porta, jogou as sacolas na varanda, despencou no sofá, pegou um biscoito e
começou a comer. Alguns minutos depois se levantou, guardou tudo, olhou para o
fichamento que fez no seu livro – Gaia Ciência -, pensou em ouvir música, mas
precisava arrumar o quintal, estava entediado, cansado, pegou seu celular,
colocou o fone de ouvido, música no aleatório, pegou a vassoura e foi. Passou
pela varanda, abriu a primeira porta que antes foi a terceira, empurrou o
portão com a fechadura quebrada, não precisava de esforço para tal, mais um
portão, seguiu pelo corredor e começou a varrer.
Imagine que um anjo passe por você no momento que
estas varrendo o quintal. Naquele instante ele concedeu um desejo involuntário,
criar um momento para algo que você nunca terá a chance de ver acontecer,
daquele momento em diante você não está mais de camiseta largada, vassoura na mão, short velho, utilizado para ficar em casa e
nada mais que isso. Você agora está de calça jeans, camisa básica azul, seus
chinelos foram transformados em um tênis casual comprado para ir ao colégio,
faculdade, ou em um bar e seu cabelo não está bagunçado. Aqui começa uma paráfrase do tempo, o tempo não
existe já pensou nisso? A hora que bate no seu relógio é diferente de outro
local, passado é tudo aquilo que já aconteceu e presente é um passado recente.
É quando Nietzsche estabelece a quebra das nossas correntes, das nossas
verdades e das nossas próprias dores, tempo está em tudo aquilo que a gente vive, ganhar ou
perder tempo é uma questão de disposição e afeto. Tudo que aqui se vive, vai
morrer, tudo que morreu, vai ser lembrado, por algum tempo, minutos, segundos,
horas, dias, anos, em pequenos momentos, a voz vai sumindo, a lembranças vai
ficando espaçada, a dor vai dando espaço para a rotina, um dia, só um dia, você
fica chateado, pois lembra da ausência, porém lá no fundo você se torna uma
outra pessoa. A verdade toda é que meu peito é uma porta entreaberta, de uma
casa em luz baixa, tocando Vambora da Adriana Calcanhoto.
-
Vem tomar café!
-
Mas...você não está mais por aqui.
-
Isso é só um momento meu neto, andou tanto tempo entre ontem e agora pensamento
em mim que acabou acontecendo.
-
Não tive a chance de te agradecer por tudo.
-
Não tem problema, meu querido! Conta para a avó das coisas, mas só das boas
hein!
-
Ah vó! Acontec...
(Um
sinal de interrupção)
-
As boas meu neto!
Olhou sem entender nada, pensou um
pouco, queria contar tudo o mais rápido que podia, aconteceu tanta coisa, não
conseguia organizar as lembranças e queria contar tudo que aconteceu, fazia
anos que não conversava com ela. Respirou fundo, olhou e lá estava, seus olhos
fixos, aquele jeito calmo, firme, sorridente. Não recordava que se lembrava
tanto dela, fazia tanto tempo, anos foram passando e tudo ali foi ganhando
pequenas formas conseguiu organizar as coisas, todavia contou tudo de forma
desordenada.
-
Hoje em dia tomo café duas vezes por dia, não tenho mais problemas para comer,
parei de fumar, estou bebendo menos, vovô é uma pessoa legal, terminei a
faculdade, virei professor, sinto falta de você toda vez que passo pelo portão
de casa, falta algo ali, ganhei um sobrinho, conheci alguns lugares bonitos,
virei capoeirista e não sou mais tão fã do biscoito da vaquinha como antes vó.
-
Continua meu amor...
-
Eu queria te dizer obrigado vó, de todas as coisas que eu tenho para te dizer
entre desculpas, perdão e saudades. Esse é o mais importante, obrigado por ter
feito de tudo para me ajudar, até nos dias que eu menos merecia. Queria dizer
que eu sempre vou lembrar de você, não lembro mais da sua voz, não lembro do
seu cheiro, nem das roupas, lembro da geleia de ameixa, dos lanches, do café da
tarde, das preocupações quando eu chegava tarde. Da pergunta de sempre assim
que eu passava pelo portão quebrado – Vai almoçar? -, mas eu esqueci muita
coisa também, não queria, me perdoa!
Parou
de falar, olhou para ela, estava tudo ali, os óculos redondos em armação
antiga, o cabelo grisalho e liso, o sorriso toda vez que ia falar, o jeito
calmo de se movimentar, devagar, serena e sossegada. Das poucas lembranças que
ficaram, a calma que sua avó passava era a parte mais marcante.
-
E agora vó, como vai ficar tudo?
-
Não vai meu neto, eu passei. Quando a gente morre dá espaço para outra pessoa,
a vaga é preenchida no mundo real, sobra só uma no estacionamento da saudade.
-
Espero que você esteja feliz no céu vó.
-
Você é ateu garoto!
-
Você não era, minha tia e minha prima não são, nessa disputa eu prefiro deixar
vocês ganhando.
-
Fica bem meu neto!
-
Fico sim vó...pode deixar.
Acordou no susto, olhou o relógio e
estava atrasado, lançou as notas, correu o mais rápido que pode, por sorte as
malas já haviam sido preparadas, passou pelo portão, atravessou o corredor,
perdeu um tempo no portão que não possuía mais a fechadura quebrada, foi até a
varanda, abriu o último portão, o quintal estava limpo. Olhou para a esposa,
com todo o carinho possível. Estava indo viajar para terminar seu doutorado.
Sua tese sobre a sincronia entre o espaço e tempo havia sido aceita. Passaria
um tempo fora, ao ir até a padaria, olhou a senhora que havia feito seu
casamento, acenou.
-
Vai viajar hoje Hugo?
-
Sim, volto em 6 meses!
-
Goubar vem dar tchau para o Hugo!
-
Tchau tio, boa viagem.
-
Quando eu voltar você já vai está inscrito na faculdade né? Espero ser seu
professor.
-
Não sei, minha avó está perturbando para eu me inscrever, mas estou pensando
ainda.
-
Aproveita ela rapaz, companhia de avó é uma coisa boa, a minha foi embora, não
lembro muito dela, mas algumas coisas ficaram, a sua avó me lembra muito a
minha.
-
hmmmm, beleza cara.
-
Tenho saudade dos cafés da tarde até hoje com ela, do Cream Cracker de ameixa e
do sorriso no rosto. Vou indo lá, até breve...
Tempo é uma brincadeira consecutiva
de diversas coisas, quase tudo não faz, não tem ou perde o sentido com ele. Já
parou para pensar o quanto do seu antigamente permanece nos dias hoje?